Entrevista: Marcelo Soares Bezerra

O engenheiro de minas, formado pela Universidade Federal de Pernambuco e Pós-graduado em engenharia econômica ressalta a necessidade de mudanças de cultura de trabalho para o sucesso de cooperação entre pequenos produtores minerais, empresários e indústrias do setor.

RedeAPLmineral: O Seridó tem tradição na exploração mineral?

Marcelo Soares Bezerra:
A produção mineral na região de Seridó (região do semi-árido nordestino entre os estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba) data de pelo menos 60 anos, ainda na década de ’40, com o esforço de guerra patrocinado pelos EUA que incluiu a construção da base militar, em Natal. Da região extraiu-se o scheelita, mineral utilizado em ligas especiais na indústria bélica, aeronáutica, dentre outras. Essa atividade teve forte declínio na década de ’90 com entrada da China no mercado mundial, praticando preços bastante baixos. Muitos mineradores da região tiveram que migrar de atividade econômica.

RedeAPLmineral: Como foi a recuperação da produção na área?

Marcelo Soares Bezerra:
A revitalização do potencial de exploração mineral passou pela estruturação de Arranjos Produtivos Locais APL’s de base mineral. Na região, a extração é realizada por células básicas muito pequenas, familiares até, de 3 ou 4 pessoas; isso numa área de cerca de 20 mil quilômetros quadrados. As pessoas estão espalhadas, praticamente isoladas umas das outras. Criar um ambiente de parceria e cooperação é muito difícil.

RedeAPLmineral: Esse é o maior desafio na sua opinião?

Marcelo Soares Bezerra:
Sim. Sem dúvida a mudança cultura, de hábitos é o passo mais difícil de ser dado, especialmente, no começo do processo. Conseguir passar para o garimpeiro/minerador, muitas vezes isolado em áreas rurais distantes, que a cooperação na exploração, beneficiamento e negociação do seu produto só agrega valor no final do processo não é tarefa fácil. A informalidade é um fator que precisa ser levado em consideração, especialmente nas questões de manejo e controle ambiental e da manutenção da qualidade do produto extraído.

RedeAPLmineral: É aí que entra a parceira no APL?

Marcelo Soares Bezerra:
Também. Ela está sempre presente. Desde o planejamento antes de qualquer trabalho, as parcerias vêm da academia, da indústria etc. No caso nosso do APL Pegamatitos do Rio Grande do Norte e Paraíba temos parcerias com 4 universidades: UFRN, UFPB, U.F. Campina Grande e a UFP; o Sebrae, CPRM, DNPM tanto federal quanto estadual também são parceiros fortes, além dos órgãos ambientais. Temos 19 entidades parceiras: de órgãos federais e estaduais, cooperativas, companhias de pesquisa mineral, Senai etc. A parcerias vão desde melhores práticas na extração até a negociação com parceiros internacionais para a exportação. 

RedeAPLmineral: Quais os ganhos para os produtores com as parcerias?

Marcelo Soares Bezerra:
Conseguimos, por exemplo, na cadeia do caulim, com o apoio de estudos acadêmicos feitos em laboratório, promover mudanças nas técnicas de extração que elevaram a produtividade de 30% para 70%. No começo foi difícil. Não é fácil introduzir uma nova técnica a pessoas que estão acostumadas, por força da tradição, a certas práticas de trabalho. Resolvemos aplicar a prática em duas minas pilotos para servirem de disseminadores. Lá, aplicamos cursos de capacitação. No princípio as pessoas ficam desconfiadas, mas depois quando vêem o resultado das mudanças percebem que são para melhorar a vida delas.

RedeAPLmineral: E as parcerias que não são na área da produção?

Marcelo Soares Bezerra:
O Sebrae tem sido parceiro fundamental nas questões comerciais e técnicas, seus especialistas têm ajudado bastante. Na cadeia produtiva da carâmica, que envolve o feldspato, o beneficiamento feito através de moagem local elevou os ganhos de R$20 para R$90 o bloco. Foram criadas padrões de qualidade para operar melhor no mercado e, também, agregar valor ao produto mineral. O ‘mica’ (muscovita- branco), utilizado como isolante térmico na indústria de isolantes elétricos, vai ser beneficiado no município de Currais Novos (RN), um dos 3 pólos fomentados na região. A Unimina fechou contrato com a multinacional suíça Von Roll, em que ela garante a compra de toda a produção dos cooperados, e a instalação de uma fabrica de beneficiamento, que quando concluída, vai elevar de R$350 para R$1000  o valor final por tonelada.

RedeAPLmineral: Os resultados são animadores, então?

Marcelo Soares Bezerra:
Resultados assim estão servindo de exemplo de como pequenos atos de cooperação podem surtir enormes efeitos. 10 cooperativas já foram regularizadas na região e quatro estão no processo de formação. No perspectiva de atingir duas mil pessoas nessa primeira fase do processo. E cinco mil ao final, depois que outros projetos com parceiros como o Sebrae, Ministério da Integração Nacional Banco do Nordeste, dentre outros, se realizarem. A expectativa é de concluir estudos sobre a negociação com outras cadeias produtivas como: a cerâmica, papel e celulose, borracha, eletro-eletrônicos, etc.

Por Claudio Almeida

Jornalista da RedeAPLmineral

Fonte: RedeAPLmineral