Entrevista: Elzivir Guerra

O coordenador do grupo de trabalho: Estruturação, Gestão e Desenvolvimento da RedeAPLmineral, doutor pela Escola de Minas da Universidade Técnica de Freiberg (Alemanha), Elzivir Guerra, atua há quase três décadas no setor mineral. Elzivir Guerra inaugura série de entrevistas do Portal da Rede, sua consolidação e os principais desafios enfrentados.

Rede de Arranjos Produtivos Locais Mineral: Como foi concebida a idéia da Rede APL de base mineral?

Elzivir Guerra: A partir de 2003 o governo federal começou a fomentar a inserção, transferência, e inovação de tecnologia em micro e pequenas empresas que fossem do setor mineral e que estivessem organizadas em Arranjos Produtivos Locais. Foi a partir daí que se sentiu a necessidade de criar um sistema de informação que era, inclusive, uma forte reivindicação dos micro e pequenos empresários do setor. Eles se queixavam de não ter acesso a informações sobre: novas tecnologias, instrumentos de comércio e crédito ou de capacitação. Então se resolveu criar a RedeAPLmineral. A Rede foi criada durante o 1º Congresso Brasileiro de Arranjos Produtivos Locais, em agosto de 2003. 

RedeAPLmineral: Como se deu a organização da RedeAPLmineral?

Elzivir Guerra: Foi acordado que o MME e MCT seriam os gestores da formação dessa Rede. Em novembro de 2004 a RedeAPLmineral teve seu primeiro encontro em Belo Horizonte durante o 2º Seminário Nacional de Tecnologia para APLs de Base Mineral. Ficou definido que a Rede seria formada por uma Coordenação Geral e por vários grupos de discussão. Neste momento foi criado a primeira página da RedeAPLmineral que ficou hospedada na rede brasileira de tecnologia. Mas foi apenas em 2006 que o Fundo do Setor Mineral apoiou a consolidação e o fortalecimento da RedeAPLmineral. A partir daí, costurou-se nova parceria entre o SGM\ MME, SETEC\MCT, o ABIPTI e o IBICT para a operacionalização da Rede. Foi realizado o primeiro encontro da Rede Brasileira de APLmineral em outubro de 2007, onde foi feito o lançamento oficial do Portal da Rede e também a constituição dos grupos de trabalho, que tiveram seus coordenadores indicados. 

RedeAPLmineral: Como é a atuação da Rede?

Elzivir Guerra: A Rede já tem atuação em pelo menos 24 estados. Inicialmente o foco de trabalho estava na caracterização e identificação dos Arranjos Produtivos, que começou em 2002. Esse estudo inicial identificou cerca de 800 aglomerados minerais que teriam o potencial de se estruturarem como APLs. Após nova triagem, chegou-se ao número final de 249 aglomerados voltados principalmente para rochas e minerais industriais que incluem: agregados para a construção civil, rochas ornamentais, gesso, sal e gema, cal e calcário, cerâmica estrutural e de revestimento e gemas e jóias. Ao final de todo o processo, foram identificados 29 APLs prioritários que receberiam atenção especial da Rede. 

RedeAPLmineral: Qual a importância dos APLs de base mineral no universo dos arranjos produtivos locais?

Elzivir Guerra: Em 2003 surgiu o grupo de trabalho permanente para Arranjos Produtivos Locais de uma forma geral, coordenado pelo MDIC. Esse grupo elegeu 11 APLs pilotos, no país inteiro, para desenvolverem metodologias de apoio e aumento de produtividade. Desses, dois eram de base mineral: o APL de Gesso em Ariripina (PE) e o de Rochas Ornamentais no (ES). Em 2004\5 foram eleitos mais 5 APLs prioritários por estado, totalizando cerca de 142, e desses, 35 são de base mineral. Isso demonstra a importância do setor mineral na economia e como vetor de desenvolvimento de pequenos e médios produtores. 

RedeAPLmineral: Como os arranjos estão distribuídos?

Elzivir Guerra: Nesse período o CT mineral tem apoiado, junto com o MME, o desenvolvimento de 25 APLs. Há os de produção de Cerâmica Vermelha que estão presentes no Amapá, Acre, Tocantins, e também no baixo Jaguaribe e no norte goiano. No Pará há APL de gemas e jóias; no Piauí existe o APL de Opala; no Ceará, há o calcário-Cariri; no RN e PB há o APL conjunto de pegmatito; E Em PE há o APL de gesso. APLS de Rochas Ornamentais são encontrados na Bahia, onde se explora o Bege Bahia; no Espírito Santo; no RJ, em Padre Santo Antônio de Pádua. Em Pirinóplis (GO), há o quartzito; e em MG temos 4 APLs: gemas e jóias do Vale do Jequitinhonha, quartzito de São Tomé das Letras, ardósia de papagaio e pedra sabão na região de Ouro Preto; em Santa Catarina há a cerâmica de revestimento; no Paraná há o cal e calcário; no Rio Grande do Sul há o gemas e jóias do estado. Ainda não há APLs de base mineral em RO, RR, AM, MS, ou MT.

RedeAPLmineral: Como se forma uma Rede tão complexa?

Elzivir Guerra: Foi utilizada uma metodologia escolhida para apoiar micro e pequenas empresas onde decidimos que a implementação seria feita por meio da construção de uma rede cooperativa: de aprendizagem, interativa e de inovação; onde envolveria órgãos da esfera social, econômica e política, isto é, unindo segmentos dos governos federal, estadual e municipal com os empresários e as instituições de pesquisa e órgãos de desenvolvimento regionais e setoriais. 

RedeAPLmineral: Como está sendo a aceitação dos pequenos produtores à essa nova maneira de trabalhar?

Elzivir Guerra: Qualquer inovação na produção requer uma mudança de mentalidade. As pessoas precisam começar a pensar em parcerias e cooperação. E para isso ocorrer adotamos certa metodologia onde se introduz a figura do coordenador local. Esse coordenador atua, exatamente, na criação e formatação dessas redes de parcerias, fortalecendo os elos entre essas instituições, alterando a maneira individualista de trabalhar para uma mais cooperativa. Apoiamos, ainda, a metodologia do extensionismo mineral, onde se tem técnicos contratados que fazem o trabalho de transferência e difusão de tecnologias já desenvolvidas pelas instituições de ciência e tecnologia para o setor produtivo. Esses extensionistas também atuam apoiando e dando assistência ao setor produtivo, principalmente, na questão da formalização da atividade, e também no apoio a busca e captação de recursos na área de fomento e das instituições de crédito. 

RedeAPLmineral: E os resultados dessa inovação?

Elzivir Guerra: Acredito que aferições devem levar em consideração escalas maiores de tempo, uma década por exemplo, para que cada uma dessas aglomerações possa desenvolver seu próprio plano de desenvolvimento, seus instrumentos e mecanismos de captação de recursos e da inserção de tecnologias e inovações. Isso requer, tanto formação de recursos humanos como também mudança da mentalidade: de se trabalhar em conjunto para que todos possam ganhar no final. O caso da formalização é um caso típico. Se for feita de forma conjunta em negociação com os órgãos e diálogo com todas as instituições é muito mais fácil para solicitar a legalização em termos mineral ou ambiental. 

RedeAPLmineral: Os produtores compreendem as facilidades de se trabalhar em Rede?

Elzivir Guerra: As técnicas de exploração dos pequenos produtores têm sido passadas de geração a geração, e para as diversas famílias que sobrevivem da atividade têm funcionadas bem. Então leva trabalho para convencer esses produtores que há outras técnicas que podem, inclusive, ser mais rentáveis e saudáveis e, ainda, melhorar bastante a produtividade deles. Isso requer um processo de troca de conscientização e mudança de mentalidades. Um exemplo disso é o que ocorreu no RS, onde foi introduzida a metodologia da extração úmida que reduziu drasticamente os casos de silicose na população mineira. Além da melhoria substancial na saúde do trabalhador, a técnica ainda traz mais eficiência e produtividade para o seu negócio. Mesmo assim, ainda se encontrou muita resistência por parte dos produtores. 

RedeAPLmineral: Esse é o maior desafio da Rede?

Elzivir Guerra: Talvez o maior desafio seja a integração das pessoas à Rede APLmineral. Há certa resistência para a utilização desse meio, seja pela questão da comunicação, que talvez precise ser equacionada, ou mesmo pela falta de conhecimento dos interessados da própria existência da RedeAPLmineral. São dois pontos que precisam ser solucionados para a correta fomentação e operacionalização da Rede. Ainda não conseguimos motivar, criar a cultura, nos pequenos produtores, de utilizar a internet para procurar solucionar os problemas de ordem técnica, tecnológica, creditícia ou mesmo de organização do trabalho. Talvez esteja faltando uma maior divulgação e também a adequação da linguagem dos instrumentos as necessidades dos usuários. 

Por Claudio Almeida

Jornalista da RedeAPLmineral

Fonte: RedeAPLmineral