Entrevista: Carlos César Peiter

Há 21 anos trabalhando como pesquisador no CETEM, o Doutor em Engenharia Mineral pela Escola Politécnica da USP, Carlos César Peiter, atua junto ao CETEM em vários projetos com APLs de base mineral do País. 

RedeAPLmineral: Como o seu trabalho no CETEM ajudou no seu trabalho com APLs de base mineral?

Carlos César Peiter: Acredito que o fato de no CETEM eu ter trabalhado com grupos de estudos econômicos e sociais formados por profissionais de diferentes áreas como: sociólogos, advogados, economistas etc, ajudou-me a compreender a realidade dos pequenos e médios produtores minerais sob uma visão mais focada. Outro fator importante foi o trabalho realizado ainda no começo da década de 90, por profissionais do setor, para a propagação de modelos de desenvolvimento sustentável para a mineração, setor muitas vezes visto com resistências por partes da sociedade.

Rede APLmineral: A questão dos modelos é um desafio para o área de APLs?

Carlos César Peiter: Sim. Há questões que levam em conta a caracterização e avaliação de APLs, a governança do Arranjo produtivo, a necessidade de ter modelos variados para aplicação em APLs que se encontram em estágio de maturação diferentes. Então essas questões precisam ser discutidas para que se possa encontrar bons modelos de desenvolvimento.

Rede APLmineral: Você pode dar um exemplo de diferentes estágios de maturação?

Carlos César Peiter: Por exemplo em Cachoeiro do Itapemirim (ES), encontramos uma situação onde várias empresas estavam formalizadas,  pagando impostos, emitindo nota fiscal etc. Então focamos esforços onde eles estavam tendo mais problemas que é a área ambiental. Isso envolve estudos e pesquisas mais elaboradas de tecnologia e inovação. Já em Santo Antônio de Pádua (RJ), a situação era completamente diferente. Existia alta taxa de informalidade, desorganização entre os produtores, uma questão ambiental grave. Então lá se teve que realizar um apoio diferente.


Rede APLmineral: Como vocês abordaram o problema?

Carlos César Peiter: Começamos por trabalhar com os garimpeiros e pequenos produtores nas pedreiras e serrarias. Praticamente todo o setor estava na informalidade. Talvez o trabalho mais duro tenha sido o de criar o ambiente para desenvolver o associativismo, cooperativismo entre os agentes produtivos. Isso tomou muito mais tempo do que o estudo efetivo para implantar melhorias na extração etc. A educação tecnológica que se seguiu foi mais fácil de ser implementada.


Rede APLmineral: Quais as ações que foram realizadas?

Carlos César Peiter: Primeiramente foi a formalização e legalização dos produtores, fizemos um trabalho grande com o DNPM para regularizar as áreas de extração. Quando chegamos à região vimos que se usavam métodos errados de manuseio de explosivos, então fizemos cursos nas áreas de saúde e segurança, incluindo manejo correto por ‘blasters’ e o tramite correto para o manuseio desse material. Mas a maior questão a ser resolvido sem dúvida era o passível ambiental gerado pelo resíduo da extração e beneficiamento.

Rede APLmineral: Como foi a superação desse problema?

Carlos César Peiter: Eram mais de 40 serralherias usando grande quantidade de água e poluindo os rios. Nosso desafio era de encontrar uma tecnologia que fosse eficiente e ao mesmo tempo barata para que todos pudessem usufruir dela. A técnica mais adequada foi a de decantação e floculação. Poderíamos ter optado pelo uso de filtro prensa, mas o equipamento era muito caro e gastava certa quantidade de energia. Implementamos uma inovação que praticamente anulou  o desperdício e o rejeito a custos muito baixos.

Rede APLmineral: E qual o destino do resíduo coletado?

Carlos César Peiter: O Instituto Nacional de Tecnologia (INT) estudou as possibilidades de uso para o resíduo captado pelos tanques de decantação e floculação e a mais viável foi o do uso do resíduo como argamassa. Com as várias parcerias fomentadas entre diversos agentes consegui-se instalar uma fábrica na área que consumirá 100% dos resíduos já produzidos e futuros.

Rede APLmineral: Esse projeto foi premiado, não?

Carlos César Peiter: Sim esse projeto ganhou o prêmio da FINEP. Mas é apenas uma das ações que estamos desenvolvendo junto a APLs. Ainda temos trabalhos com o Opala de Pedro II (PI) e o Calcário do Cariri (CE).

Rede APLmineral: O que o senhor espera do 2° Encontro da RedeAPLmineral?

Carlos César Peiter: Queremos discutir a avaliação dos trabalhos que temos desenvolvido sobre o desenvolvimento tecnológico. Saber se as idéias, os projetos estão maduros, se entendemos como inserir inovações técnicas e tecnológicas em Arranjos Produtivos Locais. Devemos nos perguntar se encontramos o caminho? Se atingirmos as metas estabelecidas e o nosso posicionamento daqui para diante.


Por Claudio Almeida

Jornalista da RedeAPLmineral

Fonte: RedeAPLmineral