{"id":738,"date":"2009-02-05T15:20:41","date_gmt":"2009-02-05T17:20:41","guid":{"rendered":"http:\/\/redeaplmineral.org.br\/?p=738"},"modified":"2020-10-21T04:27:01","modified_gmt":"2020-10-21T07:27:01","slug":"entrevista-roberto-nicolsky","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/redeaplmineral.org.br\/?p=738","title":{"rendered":"Entrevista: Roberto Nicolsky"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de Entidades Tecnol\u00f3gicas Setoriais (ETS) foi formulado pelo Governo para denominar organiza\u00e7\u00f5es voltadas para gest\u00e3o de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D), qualifica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas setoriais e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os t\u00e9cnicos, entre outras a\u00e7\u00f5es. Desde 1992, o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia (MCT) tem discutido a atua\u00e7\u00e3o das ETS &#8211; na articula\u00e7\u00e3o entre setor produtivo, institutos tecnol\u00f3gicos e agentes financiadores &#8211; buscando agilizar o atendimento \u00e0s demandas tecnol\u00f3gicas de setores da ind\u00fastria nacional. Mas o di\u00e1logo entre Governo e setor produtivo ainda \u00e9 incipiente, de acordo com o diretor-geral da Sociedade Brasileira Pr\u00f3-Inova\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica (PROTEC), Roberto Nicolsky. &#8220;O Governo tem tido boa vontade para dialogar, mas tem uma vis\u00e3o pr\u00f3pria de desenvolvimento tecnol\u00f3gico e inova\u00e7\u00e3o que pode ser ineficiente&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, a PROTEC recebeu do Minist\u00e9rio a incumb\u00eancia de articular as a\u00e7\u00f5es das ETS em torno das demandas tecnol\u00f3gicas comuns a todos os setores. A Rede de Entidades Tecnol\u00f3gicas Setoriais (RETS) foi criada com o prop\u00f3sito de fortalecer as ETS existentes e estimular o surgimento de novas entidades. &#8220;Muitas ETS s\u00e3o subprodutos de associa\u00e7\u00f5es setoriais, que est\u00e3o mais voltadas para uma agenda reivindicat\u00f3ria, de sobreviv\u00eancia. As demandas tecnol\u00f3gicas ficam em segundo plano, por isso \u00e9 importante institucionalizar um projeto tecnol\u00f3gico na forma de outra entidade&#8221;, explica Nicolsky. &#8220;A PROTEC e a RETS t\u00eam se dedicado a criar um ambiente de P&amp;D nos setores, e para isso os eventos setoriais e os cursos de capacita\u00e7\u00e3o em projetos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e propriedade industrial s\u00e3o essenciais&#8221;. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista com o diretor-geral da PROTEC.&nbsp;<br><em><strong>&nbsp;<br>Qual era o cen\u00e1rio das entidades tecnol\u00f3gicas setoriais quando surgiu a RETS?&nbsp;<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Roberto Nicolsky<\/strong><\/em>: A primeira constata\u00e7\u00e3o, ao se criar a Rede, foi a de que havia uma grande diversidade de ETS. N\u00e3o se pode falar em entidades tecnol\u00f3gicas setoriais em um sentido gen\u00e9rico da palavra, pois h\u00e1 ETS absolutamente diferentes em sua abordagem das demandas dos setores. H\u00e1 ETS que, por exemplo, se preocupam fundamentalmente com a quest\u00e3o dos insumos importados, tarifas alfandeg\u00e1rias, o ambiente regulat\u00f3rio, e h\u00e1 outras ETS que se dedicam \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o profissional e \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos. H\u00e1 uma terceira abordagem, mais tecnol\u00f3gica, como, por exemplo, a do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Cal\u00e7ado e Artefatos (IBTeC), que desenvolveu um laborat\u00f3rio de ponta para an\u00e1lise do pisar para desenvolvimento de cal\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Como \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o da RETS na identifica\u00e7\u00e3o das demandas tecnol\u00f3gicas setoriais?&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Nicolsky:&nbsp;<\/em><\/strong>Poucas entidades se dedicam a criar um ambiente de pesquisa e desenvolvimento em seus respectivos setores, e \u00e9 para isso que a PROTEC e RETS t\u00eam se voltado. Em 2008, criamos um curso de capacita\u00e7\u00e3o de recursos humanos para desenvolvimento de projetos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica (PIT), voltado para diversos setores e destinado n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 capta\u00e7\u00e3o de recursos externos, mas tamb\u00e9m \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, nas empresas, das atividades de P&amp;D; realizamos, em 2007, um semin\u00e1rio de recursos para inova\u00e7\u00e3o nas empresas e um curso de capacita\u00e7\u00e3o em patentes e propriedade industrial. Entramos, em 2009, no terceiro ciclo de projetos, com a continuidade do curso PIT e dos cursos de capacita\u00e7\u00e3o em patentes e propriedade industrial &#8211; para isso estamos negociando um conv\u00eanio com o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) &#8211; e vamos introduzir, na medida do poss\u00edvel, um site para divulga\u00e7\u00e3o de todas as informa\u00e7\u00f5es sobre inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para as ETS, que ser\u00e1 hospedado no portal da RETS. Vamos tamb\u00e9m realizar um estudo sobre os resultados que o edital de Subven\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica da Finep est\u00e1 produzindo nos setores contemplados que fazem parte da Rede: sa\u00fade, biotecnologia, eletroeletr\u00f4nica, energia e tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o. Futuramente, devemos criar um mecanismo de acompanhamento de patentes, que deve ser organizado de forma coletiva, para todos os setores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Um dos pontos de atua\u00e7\u00e3o da RETS s\u00e3o os cursos de capacita\u00e7\u00e3o e os eventos setoriais. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia dessas a\u00e7\u00f5es para a consolida\u00e7\u00e3o das ETS?&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Nicolsky:&nbsp;<\/em><\/strong>Os eventos s\u00e3o fundamentais para que as ETS se institucionalizem na \u00e1rea de inova\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso que haja um f\u00f3rum em que as quest\u00f5es da inova\u00e7\u00e3o e de pesquisa e desenvolvimento tecnol\u00f3gico possam ser debatidas com os profissionais de cada setor, tanto das empresas quanto dos centros de P&amp;D. Na primeira fase da RETS, realizamos tr\u00eas eventos: os Encontros Nacionais de Inova\u00e7\u00e3o em F\u00e1rmacos e Medicamentos; em Eletroeletr\u00f4nicos; e em M\u00e1quinas e Equipamentos (Enifarmed, Enicee e Enimep, respectivamente). Em 2008, realizamos apenas um encontro setorial, a segunda edi\u00e7\u00e3o do Enifarmed, porque foi entendido que os outros setores ainda n\u00e3o estavam suficientemente maduros para terem um evento anual, o que nos levou a determinarmos uma freq\u00fc\u00eancia bienal. Por isso, em 2009, devemos ter o segundo Enicee e o segundo Enimep, al\u00e9m do terceiro Enifarmed. Talvez, no futuro, venhamos a fazer encontros de outros setores, mas isso depende da demanda de cada \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira fase da Rede, esper\u00e1vamos alcan\u00e7ar, no final de um ano, uma associa\u00e7\u00e3o de 12 entidades; no entanto, chegamos a 16 &#8211; e em 2008, chegamos ao n\u00famero atual, 17. No momento, n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de pensar em criar em novas ETS, mas daremos mais subst\u00e2ncia e conte\u00fado ligado \u00e0 pesquisa e desenvolvimento nas entidades existentes, porque, em geral, as ETS est\u00e3o muito segmentadas nas tecnologias espec\u00edficas de seus setores, e queremos fazer com que elas tenham um espectro tecnol\u00f3gico mais amplo. Em um futuro mais distante, pretendemos, antes de criar novas ETS, absorver algumas entidades j\u00e1 existentes, incorpor\u00e1-las \u00e0 RETS e atend\u00ea-las tamb\u00e9m, e somente em uma etapa posterior vamos pensar em fazer novas ETS. A experi\u00eancia de desenvolver a rede nos mostrou que criar uma ETS n\u00e3o \u00e9 trivial, requer dedica\u00e7\u00e3o e tempo, porque \u00e9 preciso passar uma nova cultura, uma nova id\u00e9ia. Como a rede j\u00e1 cobre os principais setores da economia brasileira, pensamos em fazer novas entidades apenas se surgir uma demanda bem cristalizada de algum outro setor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Muitas associa\u00e7\u00f5es t\u00eam setores tecnol\u00f3gicos subordinados \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es. Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre esses setores tecnol\u00f3gicos e as ETS?&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Nicolsky:<\/em><\/strong>&nbsp;Em geral, as associa\u00e7\u00f5es setoriais foram criadas em fun\u00e7\u00e3o de uma agenda representativa de reivindica\u00e7\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es ligadas a aspectos comerciais, tribut\u00e1rios, financeiros, produtivos e trabalhistas. Com este tipo de projeto, as demandas tecnol\u00f3gicas ficam em plano muito inferior. Mesmo que seja criado um setor tecnol\u00f3gico dentro das associa\u00e7\u00f5es, dificilmente ele conseguir\u00e1 prosperar competindo com essa agenda dominante, que \u00e9 de sobreviv\u00eancia. Neste caso, vale a pena institucionalizar um projeto tecnol\u00f3gico atrav\u00e9s de uma outra entidade. Ent\u00e3o, as ETS, em geral, s\u00e3o subprodutos das associa\u00e7\u00f5es setoriais. Quando o setor j\u00e1 tem uma entidade forte na \u00e1rea de representa\u00e7\u00e3o e adquire consci\u00eancia de que \u00e9 preciso tamb\u00e9m estar bem articulado no setor tecnol\u00f3gico, a demanda de criar uma ETS fica evidente. Por isso, em um primeiro momento, antes de formarmos a rede, conseguimos criar cinco ETS em setores que tinham esta caracter\u00edstica: f\u00e1rmacos e medicamentos, bens de capital, eletroeletr\u00f4nica (um caso t\u00edpico de setor muito forte que n\u00e3o tinha ETS, embora tivesse um setor tecnol\u00f3gico dentro da associa\u00e7\u00e3o setorial), cosm\u00e9ticos e borracha natural. H\u00e1 muitas entidades de car\u00e1ter misto, que t\u00eam uma parcela de representa\u00e7\u00e3o setorial, mas que tamb\u00e9m t\u00eam pautas tecnol\u00f3gicas relevantes, como a Abifina, que \u00e9 do setor de qu\u00edmica fina e biotecnologia, e a Abiquim, do setor qu\u00edmico. Elas s\u00e3o entidades que t\u00eam um car\u00e1ter tecnol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m t\u00eam uma agenda de representa\u00e7\u00e3o principalmente ligada a quest\u00f5es do com\u00e9rcio exterior e propriedade industrial. Na medida do poss\u00edvel, a RETS vai buscar diversificar a atua\u00e7\u00e3o das ETS, para que elas ofere\u00e7am um leque mais amplo de servi\u00e7os tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>O conceito de ETS foi criado pelo MCT para institucionalizar a\u00e7\u00f5es setoriais para o aumento da competitividade da ind\u00fastria nacional. Como \u00e9 o di\u00e1logo entre as entidades e o Governo atualmente?&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Nicolsky:<\/em><\/strong>&nbsp;O Governo tem interesse e boa vontade para discutir as demandas dos setores, mas por ter ele tamb\u00e9m seu corpo t\u00e9cnico e as suas diretrizes, acaba priorizando sua pr\u00f3pria vis\u00e3o. Isso tem sido, muitas vezes, frut\u00edfero; mas, na maioria das vezes, tem sido bastante ineficiente, porque a vis\u00e3o do Governo, mesmo que em um determinado momento seja pertinente, se defasa com o tempo e n\u00e3o absorve novas concep\u00e7\u00f5es e demandas. O papel da RETS como articuladora das demandas coletivas, iguais para todos os setores, \u00e9 importante, mas ela entra apenas como um suporte. Mesmo assim, n\u00e3o tem sido f\u00e1cil. Ainda n\u00e3o h\u00e1 uma interlocu\u00e7\u00e3o institucionalizada e f\u00e1cil com o Governo. Al\u00e9m disso, quando muda o mandato, ainda que o presidente seja o mesmo, muda tamb\u00e9m a agenda de prioridades. Isso imp\u00f5e flutua\u00e7\u00f5es e dificuldades no di\u00e1logo. Atualmente, tivemos uma boa intera\u00e7\u00e3o &#8211; a RETS vem sendo apoiada pelo MCT atrav\u00e9s do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) &#8211; contudo, a rela\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o est\u00e1 institucionalizada &#8211; ela tem de ser refeita e rediscutida sempre. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez com a setorializa\u00e7\u00e3o mais efetiva dos \u00f3rg\u00e3os do Governo, esse di\u00e1logo se torne mais f\u00e1cil. O BNDES, por exemplo, tem um projeto espec\u00edfico na \u00e1rea de f\u00e1rmacos e medicamentos. O banco estudou o setor e reconheceu as demandas &#8211; coincidentemente no momento em que criamos o IPDFarma -, o que gerou um programa comum, discutido de forma harm\u00f4nica. Com isso, e por ter mais recursos, o BNDES se institucionalizou como principal agente do Governo para essa \u00e1rea, j\u00e1 que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade vem implementando sua pol\u00edtica atrav\u00e9s do BNDES. Esperamos que isto aconte\u00e7a em outros setores, que eles possam negociar suas demandas com o BNDES, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 um entrosamento eficiente, principalmente na \u00e1rea tecnol\u00f3gica. Muitas entidades n\u00e3o t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o com o Governo. As ETS mais fortes atuam praticamente sozinhas em seus setores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas ETS ainda t\u00eam um vi\u00e9s bastante reivindicat\u00f3rio e n\u00e3o conseguem separar a agenda de sobreviv\u00eancia da agenda tecnol\u00f3gica, por isso n\u00e3o conseguem ter um programa especificamente tecnol\u00f3gico. Acredito que a RETS poder\u00e1 exercer um papel de estimular esse entrosamento das pol\u00edticas p\u00fablicas com as demandas setoriais &#8211; mas \u00e9 algo que ainda ter\u00e1 que ser articulado. Em benef\u00edcio da inova\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico deve ser independente dessa agenda representativa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<br><strong>Fonte: Protec<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conceito de Entidades Tecnol\u00f3gicas Setoriais (ETS) foi formulado pelo Governo para denominar organiza\u00e7\u00f5es voltadas para gest\u00e3o de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D), qualifica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas setoriais e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os t\u00e9cnicos, entre outras a\u00e7\u00f5es. 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