{"id":713,"date":"2008-05-02T14:51:34","date_gmt":"2008-05-02T17:51:34","guid":{"rendered":"http:\/\/redeaplmineral.org.br\/?p=713"},"modified":"2020-10-21T04:34:45","modified_gmt":"2020-10-21T07:34:45","slug":"entrevista-jose-ferreira-leal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/redeaplmineral.org.br\/?p=713","title":{"rendered":"Entrevista: Jos\u00e9 Ferreira Leal"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>No setor mineral h\u00e1 mais de quarenta anos, o geol\u00f3go e professor Jos\u00e9 Ferreira Leal, conversa com o portal da RedeAPLmineral sobre esse mercado no Brasil e os desafios de se implementar um Arranjo Produtivo Local de Base Mineral no pa\u00eds.<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: Como as pequenas empresas podem aproveitar este bom momento do setor mineral?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/em><\/strong>&nbsp;No setor mineral voc\u00ea tem duas \u00e1reas muito distintas: as pequenas empresas e seus agrupamentos; e as grandes corpora\u00e7\u00f5es ou investidores capitalizados. A ind\u00fastria da minera\u00e7\u00e3o se caracteriza pela consolida\u00e7\u00e3o de uma ind\u00fastria de investimentos de m\u00e9dio e longo prazo. Ent\u00e3o a capitaliza\u00e7\u00e3o intensiva dessas empresas \u00e9 necess\u00e1ria. No entanto, no Brasil, como existe o potencial de \u00e1reas que nunca foram trabalhadas voc\u00ea tem a possibilidade do pequeno investidor encontrar riquezas que n\u00e3o precisam desse capital massivo. Ent\u00e3o h\u00e1 muitas oportunidades com minerais de alto valor em que o pequeno investidor pode ter sucesso como: ouro, diamantes, cassiterita, pedras coradas e outros.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: O arranjo produtivo \u00e9 o melhor caminho para esses pequenos produtores?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/em><\/strong>&nbsp;Quando falamos em arranjos produtivos locais falamos de promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas junto a pequenas empresas de minera\u00e7\u00e3o agrupadas geograficamente. Se o governo federal fosse atender a essas empresas, individualmente, num pa\u00eds do tamanho do Brasil, ele n\u00e3o conseguiria terminar a miss\u00e3o. Quando se tem um distrito mineiro ou uma concentra\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o mineral com v\u00e1rios atores de pequeno porte e da mesma cadeia produtiva, se tem o local priorit\u00e1rio para os investimentos das pol\u00edticas p\u00fablicas, pois se estar\u00e1 atendendo a um maior n\u00famero de pequenos empres\u00e1rios, simultaneamente.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: O que destaca o RS nesse setor de gemas e j\u00f3ias?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/em><\/strong>&nbsp;O Brasil \u00e9 onde se localiza as maiores jazidas mundiais de ametista e \u00e1gata, encontradas em grandes concentra\u00e7\u00f5es nos derrames bas\u00e1lticos da Bacia do Paran\u00e1, onde a produ\u00e7\u00e3o garimpeira tem se intensificado nos \u00faltimos 30 anos. E \u00e9 por essa produ\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds consegue influenciar a cota\u00e7\u00e3o internacional n\u00e3o s\u00f3 da ametista como do citrino e da \u00e1gata. O governo brasileiro prestou aten\u00e7\u00e3o a esse mercado e percebeu que depois de Minas Gerais o Rio Grande do Sul \u00e9 a segunda prov\u00edncia mineral de maior express\u00e3o em produ\u00e7\u00e3o de pedras preciosas do Brasil. E para racionalizar essa produ\u00e7\u00e3o de pedras coradas o governo achou por bem criar e desenvolver o arranjo produtivo de gemas e j\u00f3ias do RS.<br><br><em><strong>RedeAPLmineral: Como esse processo de desenvolvimento do arranjo produtivo de gemas e j\u00f3ias come\u00e7ou no RS?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/strong><\/em>&nbsp;O projeto come\u00e7ou, efetivamente, em mar\u00e7o de 2005 com o intuito principal de tentar agregar valor e emprego ao produto final exportado em bruto. A op\u00e7\u00e3o pelo sistema de arranjo \u00e9 pelo fato de ele conseguir agregar mais institui\u00e7\u00f5es parceiras, mais m\u00e3o-de-obra e mais distribui\u00e7\u00e3o de renda na regi\u00e3o, dando uma dimens\u00e3o nova a cadeia produtiva. E \u00e9 a lapida\u00e7\u00e3o o principal instrumento para agregar valor e emprego ao processo. H\u00e1 v\u00e1rios tipos de lapida\u00e7\u00e3o: a facetada, cabuch\u00e3o, ex\u00f3ticas, do mil\u00eanio; e atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de grupos de melhorias de tecnologia, gest\u00e3o, mercado, cr\u00e9dito, e meio ambiente estamos aproximando os trabalhadores da mina bruta e os beneficiadores que j\u00e1 existem na regi\u00e3o. Esses grupos discutem em parceria as suas dificuldades, e fazem um diagn\u00f3stico de todos os seus obst\u00e1culos, sempre procurando ultrapassar os problemas criando um ambiente de troca de conhecimentos num processo continuado de aprendizagem coletiva.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: Qual o tamanho desse mercado de gemas e j\u00f3ias no Brasil?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/em><\/strong>&nbsp;Em 2006\/07 o RS exportou, oficialmente, cerca de US$60 milh\u00f5es em pedras brutas e em estado lapidado. Essa produ\u00e7\u00e3o foi, especialmente, para a China \u2013 que tornou-se o maior comprador nos \u00faltimos anos- e tamb\u00e9m para os EUA, It\u00e1lia, Jap\u00e3o e Alemanha, mercados tradicionais das pedras brasileiras. O que vem acontecendo, recentemente, \u00e9 a expans\u00e3o do mercado de gemas e pedras, que anteriormente eram rejeitadas e que hoje s\u00e3o beneficiadas, aproveitando-as para a confec\u00e7\u00e3o de bijuterias e artesanato mineral. Essas pedras iam, tradicionalmente, para o mercado decorativo:&nbsp; interiores de casas e edif\u00edcios &#8211; que absorvia a ametista brasileira. As frentes de lavra do RS est\u00e3o produzindo em m\u00e9dia 350 toneladas\/m\u00eas. Desses, somente 3% ou cerca de 12 toneladas \u00e9 revertido para a ind\u00fastria joalheira. S\u00e3o dois setores muito distintos com mercados absolutamente diferenciados.&nbsp; Cerca de 95% da \u00e1gata \u00e9 exportada como material decorativo e artesanato, e uma certa quantidade como pedras para colares, brincos an\u00e9is etc.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: Quem participa desse arranjo produtivo. De quem estamos falando ?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:&nbsp;<\/em><\/strong>Falamos de toda a cadeia produtiva: desde a pesquisa geol\u00f3gica para determinar a origem, a gen\u00e9tica das pe\u00e7as \u2013 feita por consultores, Universidade Federal do RS e da Universidade do Vale Taquari (Univates); passando pela lavra; e tamb\u00e9m o beneficiamento com a lapida\u00e7\u00e3o das pedras, al\u00e9m de servi\u00e7os agregados e do setor joalheiro. A preocupa\u00e7\u00e3o do governo \u00e9 agregar valor a essa mat\u00e9ria prima que, antes, era exportada em grande volume na forma bruta, e gerar emprego. A nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar esse garimpo, diante das exig\u00eancias ambientais e do c\u00f3digo de minera\u00e7\u00e3o, compat\u00edvel com os aspectos de seguran\u00e7a e sa\u00fade.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: Em que o projeto de apoio ao desenvolvimento em rede do arranjo produtivo mais ajudou os produtores?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:&nbsp;<\/em><\/strong>O grande avan\u00e7o do projeto nesses anos foi o de fazer a pesquisa geol\u00f3gica de forma a demonstrar a vida \u00fatil dessas jazidas. E n\u00f3s sabemos, hoje, que elas t\u00eam, no m\u00ednimo, 100 anos de vida \u00fatil, dentro do n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o atual, ou seja, 4 a 5 mil toneladas\/ano. Isso demonstrou ao governo que durante esse tempo o retorno ser\u00e1 garantido, e, ao mesmo tempo, subsidiou a cria\u00e7\u00e3o de um centro de tecnologia para o beneficiamento das pedras preciosas no RS.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: Os ganhos foram s\u00f3 econ\u00f4micos?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/em><\/strong>&nbsp;Me mudei para o RS h\u00e1 quatro anos e nesse tempo posso dizer, com toda a tranq\u00fcilidade, que talvez a maior mudan\u00e7a que tenha sido de cunho cultural com desdobramentos na sa\u00fade. Quando chegamos ao estado havia mais de 500 casos da doen\u00e7a chamada \u201csilicose\u201d -provocada pela inala\u00e7\u00e3o de p\u00f3 dentro das galerias de minas-, n\u00f3s temos hoje mais de 70 casos de pessoas que est\u00e3o na fila para transplante de pulm\u00e3o, e centenas de casos dram\u00e1ticos. Esse \u00e9 um problema que se arrastava h\u00e1 mais de 30 anos desde o come\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o das lavras subterr\u00e2neas. Foi com muita dificuldade, com muita demonstra\u00e7\u00e3o, que conseguimos as mudan\u00e7as na cultura da extra\u00e7\u00e3o, que antes se fazia a seco para a extra\u00e7\u00e3o \u00famida \u2013 que diminui em at\u00e9 95% a poeira dentro das galerias. Parece uma coisa \u00f3bvia, que deveria ter sido feito h\u00e1 muito tempo, mas s\u00f3 foi nos dois primeiros anos do projeto que conseguimos demonstrar a economicidade do processo, as vantagens de seguran\u00e7a da opera\u00e7\u00e3o, e as condi\u00e7\u00f5es financeiras para que eles fizessem essa transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica oferecida pela cooperativa de cr\u00e9dito no RS. E mesmo assim, por raz\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o foi dif\u00edcil convencer os produtores a mudar seus h\u00e1bitos. S\u00f3 conseguimos mudar a consci\u00eancia quando come\u00e7amos a dialogar com os filhos e esposas dos produtores para conseguir convenc\u00ea-los da necessidade de mudar o processo de extra\u00e7\u00e3o. Essa mudan\u00e7a cultural se efetivou e, hoje, cerca de 70% dos garimpos n\u00e3o atuam mais com o sistema de lavra a seco dos &#8220;marteleiros&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>RedeAPLmineral: Quantos empregos diretos s\u00e3o gerados e quantos munic\u00edpios est\u00e3o envolvidos esse Arranjo Produtivo?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:<\/em><\/strong>&nbsp;Temos tr\u00eas \u00e1reas de cooperativas no estado, que incluem cerca de 600 pessoas trabalhando com o beneficiamento do produto: lapida\u00e7\u00e3o, artesanato, bijuterias; h\u00e1, ainda, mais 3 mil oper\u00e1rios que trabalham diretamente nas lavras. O APL cresceu tanto que ficou regional, trabalhamos no norte do estado na regi\u00e3o de Ametista do Sul com 8 munic\u00edpios; trabalhamos no centro do estado na regi\u00e3o de S\u00e3o Martinho da Serra em 9 munic\u00edpios; e na fronteira do Uruguai em 3 munic\u00edpios. Nas tr\u00eas regi\u00f5es existem as diversas etapas da produ\u00e7\u00e3o desde a extra\u00e7\u00e3o at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o final e venda; o trabalho \u00e9 feito em parceria com 4 minist\u00e9rios: MDIC, MME, MCT e o Minist\u00e9rio da Integra\u00e7\u00e3o Nacional; que s\u00e3o fundamentais para o sucesso do programa, e agora o Minist\u00e9rio do Turismo entrou como parceiro, j\u00e1 que as lavras e arredores viraram pontos tur\u00edsticos na regi\u00e3o com a curiosidade das pessoas em conhecer o processo de fabrica\u00e7\u00e3o das gemas e j\u00f3ias.&nbsp;<br><br><strong><em>RedeAPLmineral: Hoje, o que falta para um crescimento ainda maior no setor?<br><br>Jos\u00e9 Ferreira Leal:&nbsp;<\/em><\/strong>Sem d\u00favida nenhuma \u00e9 a governan\u00e7a, nos v\u00e1rios n\u00edveis: desde o local, na ponta, at\u00e9 o federal. S\u00f3 pode haver um bom projeto se tivermos a governan\u00e7a, ela come\u00e7a na parceria entre as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas federais. Se eles n\u00e3o se entenderem, n\u00e3o falarem a mesma l\u00edngua a parceria local \u00e9 inviabilizada. E se n\u00e3o houver parceria n\u00e3o h\u00e1 o arranjo local produtivo. A cultura da governan\u00e7a \u00e9 nova no Brasil. O trato do processo de desenvolvimento de arranjos produtivos no pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 uma coisa que vem da tradi\u00e7\u00e3o; o arranjo produtivo come\u00e7ou a ter destaque com o processo recente de globaliza\u00e7\u00e3o e esse processo exige novas formas de inser\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas dentro dos arranjos produtivos. Essas novas pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o ainda de aplica\u00e7\u00e3o generalizada nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos federais nem estaduais. Esse \u00e9 o maior problema atual dos arranjos produtivos. Enquanto n\u00e3o tiver um maior entrosamento desses parceiros \u00e9 invi\u00e1vel esperar do campo melhores resultados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Claudio Almeida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jornalista da RedeAPLmineral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.redeaplmineral.org.br\/\">RedeAPLmineral<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No setor mineral h\u00e1 mais de quarenta anos, o geol\u00f3go e professor Jos\u00e9 Ferreira Leal, conversa com o portal da RedeAPLmineral sobre esse mercado no Brasil e os desafios de se implementar um Arranjo Produtivo Local de Base Mineral no pa\u00eds. RedeAPLmineral: Como as pequenas empresas podem aproveitar este bom momento do setor mineral? 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