{"id":1954,"date":"2011-08-15T14:59:23","date_gmt":"2011-08-15T17:59:23","guid":{"rendered":"http:\/\/redeaplmineral.org.br\/?p=1954"},"modified":"2020-10-14T01:36:45","modified_gmt":"2020-10-14T04:36:45","slug":"mulheres-sao-destaque-na-mineracao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/redeaplmineral.org.br\/?p=1954","title":{"rendered":"Mulheres s\u00e3o destaque na minera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c0s 4h, quando o c\u00e9u ainda exibe um tom de azul-escuro profundo, a coordenadora de meio ambiente Euzenir Porto, 28 anos, j\u00e1 est\u00e1 de p\u00e9. Enquanto acorda o marido, o engenheiro mec\u00e2nico Ant\u00f4nio Lima, 26, ela passa o caf\u00e9, tinge os l\u00e1bios com batom e arruma seus apetrechos para mais um dia de trabalho. Na mochila, o capacete e os abafadores de ouvido dividem espa\u00e7o com o estojo de maquiagem e um pequeno travesseiro, que ser\u00e1 usado no trajeto de uma hora entre a cidade de Parauapebas, onde mora, e a mina de ouro da Colossus Geologia e Participa\u00e7\u00f5es, em Serra Pelada. No lugar que ficou mundialmente conhecido por ter abrigado uma das maiores \u00e1reas garimpeiras do planeta, Euzenir representa a verdadeira conquista feminina. Ela \u00e9 uma das mais de 130 trabalhadoras contratadas desde 2007 pela mineradora canadense Colossus, que em parceria com a Cooperativa de Minera\u00e7\u00e3o dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp) conseguiu o direito de explorar novamente a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se at\u00e9 a d\u00e9cada de 1990 a presen\u00e7a das mulheres era proibida entre os mais de 100 mil homens do garimpo, hoje elas n\u00e3o s\u00f3 circulam como tamb\u00e9m comandam a implanta\u00e7\u00e3o da Nova Serra Pelada. Das funcion\u00e1rias da Colossus, 10% ocupam cargos de ger\u00eancia, assim como Euzenir, que deixou as praias de sua terra natal, em Porto Seguro, na Bahia, para chefiar 70 homens no monitoramento ambiental do projeto. \u201cN\u00e3o sinto preconceito ou insubordina\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 me disseram que tenho fama de brava\u201d, conta, bem-humorada. Atra\u00edda pelos altos sal\u00e1rios e desafios do setor, ela chegou a Parauapebas trazendo a m\u00e3e e as duas irm\u00e3s a tiracolo. L\u00e1, casou-se com Ant\u00f4nio, teve a filha Let\u00edcia, 3 anos, comprou uma casa e um carro zero, ambos quitados. Agora investe parte dos rendimentos do casal, cerca de R$ 13 mil mensais, em uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em minera\u00e7\u00e3o, em aulas de ingl\u00eas e em pilates, tarefas que ocupam seu pouco tempo livre ap\u00f3s a maratona de nove horas trabalhadas na mina. \u201c\u00c9 duro, mas fa\u00e7o isso pelo futuro da minha filha\u201d, diz Euzenir.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o feminina entre os trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o tomou impulso nos \u00faltimos dez anos. \u201cAs mulheres sempre estiveram nos garimpos acompanhando seus maridos de forma ilegal\u201d, conta Luiz Carlos Celaro, diretor-geral da Colossus no Brasil. \u201cConforme o setor evoluiu e se profissionalizou, a m\u00e3o de obra feminina passou a ser regularizada e requisitada\u201d, diz ele. \u00c9 uma enorme conquista. Na antiga Serra Pelada, associava-se a presen\u00e7a das mulheres \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Agora, elas formam um contingente qualificado, boa parte com curso superior de geologia e engenharia. Em cargos de comando, chefiam uma legi\u00e3o de homens, a maioria pe\u00f5es de obra nas minas de Serra Pelada e de Caraj\u00e1s, tamb\u00e9m no sul do Par\u00e1, onde a Vale extrai min\u00e9rio gra\u00e7as ao trabalho de mil funcion\u00e1rias, 13% da for\u00e7a de trabalho da empresa no local.<\/p>\n\n\n\n<p>Para prosperar no garimpo, muitas t\u00eam de enfrentar o preconceito e a desconfian\u00e7a masculinas. Tatiane Arouche, 25 anos, supervisora em seguran\u00e7a do trabalho, deparou-se com os desafios de lidar com os colegas de trabalho homens logo no in\u00edcio da profiss\u00e3o. Aos 19 anos, ela teve de advertir um pe\u00e3o de obra, com mais de 30 anos de servi\u00e7o, que estava sem os equipamentos de seguran\u00e7a. \u201cA resposta dele foi: \u2018Voc\u00ea devia estar brincando de boneca com a minha filha\u2019\u201d, conta Tatiane. \u201cNa hora senti vontade de chorar, mas me mantive firme e reforcei a bronca.\u201d Desse dia em diante, a maranhense, reconhecida pela seriedade com que manda em mais de 500 homens, guardou um conselho do pai, top\u00f3grafo: \u201cNunca fique sorrindo para pe\u00e3o de obra.\u201d O semblante fechado s\u00f3 \u00e9 deixado de lado quando ela fala do noivo, motorista na mina da Colossus. O casal j\u00e1 mora junto h\u00e1 um ano, mas ela faz quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o quer se casar no papel. \u201cS\u00f3 uso alian\u00e7a a pedido dele\u201d, conta, deixando transparecer o orgulho por sua independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A engenheira el\u00e9trica Cristiane Silva, 32 anos, tem outra estrat\u00e9gia para lidar com seus subordinados do sexo masculino. \u201cConquisto meus funcion\u00e1rios com humor, humildade e gentileza\u201d, conta a paraibana de Jo\u00e3o Pessoa. Com apenas 1,52 m de altura, voz suave e rosto de crian\u00e7a, Cristiane tamb\u00e9m sabe se impor, quando acha necess\u00e1rio. \u201cJ\u00e1 tive problemas com um eletricista evang\u00e9lico, que n\u00e3o gostava de receber ordens de mulher. Eu disse para ele: \u2018Olha, n\u00e3o vou mudar o meu sexo, ent\u00e3o voc\u00ea vai ter que me obedecer\u2019\u201d, diz. As dificuldades de aceita\u00e7\u00e3o entre os g\u00eaneros tamb\u00e9m foram sentidas por Cristiane durante a faculdade em Campina Grande. Em sua turma, havia apenas sete mulheres e 22 homens. Mesmo que n\u00e3o houvesse discrimina\u00e7\u00e3o por parte dos colegas, ela testemunhou de perto o preconceito de um professor. \u201cEle achava que as mulheres s\u00f3 podiam se sentar no fundo da sala. Mas eu sentava bem na frente, afinal, era meu direito estar ali\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Num ambiente historicamente in\u00f3spito para as mulheres, manter a vaidade \u00e9 uma necessidade para muitas delas. \u201cEstar em uma fun\u00e7\u00e3o tipicamente masculina n\u00e3o \u00e9 problema para mim\u201d, diz a t\u00e9cnica em minera\u00e7\u00e3o Ellen Lima, 27 anos, que supervisiona amostras de rocha ou sedimentos para verificar o teor de ouro em determinadas \u00e1reas. O cuidado com o visual \u00e9 uma marca da bela morena de tra\u00e7os ind\u00edgenas que n\u00e3o dispensa brincos e an\u00e9is no dia a dia. A escavadeirista Gabrielly Borges, 22 anos, gosta tanto de se arrumar que chega a ser repreendida pela fam\u00edlia. \u201cFa\u00e7o quest\u00e3o de estar sempre com as unhas feitas. Minha m\u00e3e \u00e0s vezes reclama: \u2018Menina, para que se arrumar tanto para ir na mina?\u2019 Mas trabalhar aqui n\u00e3o significa que devo me masculinizar\u201d, diz ela. Gabrielly dirige a escavadeira hidr\u00e1ulica Komats\u00fa PC 8000, uma gigante de 19 metros de altura, equivalente a um pr\u00e9dio de seis andares, e com capacidade para carregar at\u00e9 75 toneladas de terra por vez. O tamanho imponente da m\u00e1quina contrasta com o tipo f\u00edsico delicado da paraense de Santar\u00e9m que come\u00e7ou na minera\u00e7\u00e3o em um est\u00e1gio em Caraj\u00e1s, na \u00e1rea de opera\u00e7\u00e3o de equipamentos de grande porte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com todos os avan\u00e7os, a pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o refor\u00e7a o preconceito ao limitar a participa\u00e7\u00e3o feminina ao trabalho a c\u00e9u aberto. Seguindo uma conven\u00e7\u00e3o internacional, um decreto lei de 1938 pro\u00edbe que as mulheres atuem no subterr\u00e2neo. Elas s\u00f3 podem desempenhar fun\u00e7\u00f5es acima do solo, n\u00e3o menos exigentes e desgastantes. \u201c\u00c9 uma lei completamente defasada\u201d, lamenta Celaro, da Colossus. Mas o futuro \u00e9 promissor. \u201cAs mulheres j\u00e1 afirmaram sua compet\u00eancia no setor de minera\u00e7\u00e3o e alguns gestores at\u00e9 preferem trabalhar com elas por sua determina\u00e7\u00e3o e disciplina\u201d, refor\u00e7a Luciana Magalh\u00e3es, gerente regional de recursos humanos da Vale em Caraj\u00e1s. Prova de que nem as fun\u00e7\u00f5es mais \u00e1rduas s\u00e3o um impedimento para a ascens\u00e3o profissional do chamado sexo fr\u00e1gil.<br><br><strong>Fonte:&nbsp;Revista Isto\u00c9<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s 4h, quando o c\u00e9u ainda exibe um tom de azul-escuro profundo, a coordenadora de meio ambiente Euzenir Porto, 28 anos, j\u00e1 est\u00e1 de p\u00e9. Enquanto acorda o marido, o engenheiro mec\u00e2nico Ant\u00f4nio Lima, 26, ela passa o caf\u00e9, tinge os l\u00e1bios com batom e arruma seus apetrechos para mais um dia de trabalho. 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